quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Poema Ante-Póstumo



Porque falavas como já ninguém fala,
A razão para falares sem cessar,
Com calma e clareza, mais fala,
Como se o mundo estivesse a acabar,

A Ti, que respeitas o silêncio
No silêncio quebrado dos murais
Sujam breves e incisivas no silêncio,
Baluartes, espadas e punhais,

Que a tua voz plausível, sage e insigne,
Elevada sobre a sombra da suástica,
Prevaleça como um repto rectilíneo
Sobre a nova assepsia pornográfica.

A cidade, velha astúcia, é hoje morte,
A concórdia, mentira descarada,
Mas de ruinas, a tua voz sairá mais forte
Nessa nova e ansiada madrugada.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Non Plores, Brutus



Brutus, não chores,
Se as Moiras te mostrarem
Um futuro Tenebroso,
Se toda a tua coragem e esforços
Para domar a cobardia
Saírem gorados.

O Povo gosta de tiranos,
Já o devias saber.

Tão pouco lamentes
O dia em que imperadores
Efeminados conspurquem o nome
De Roma ou então, horror dos horrores,
Se intitulem de Rex.

Já está tudo escrito e tudo pensado
E das falas ordinárias dos bairros de má-fama
Sairão ainda obras belas como as que
Aprendeste dos teus perceptores.

Do mais duro dos corações
Podem ainda sair Eneidas em gestos,
Nada acabará, Brutus, apenas aparente
Na mudança se desenha o apocalipse.
Não te fies.

Ainda antes, acaso não te tivesse tomado
A ansiedade, que te volvesses num poço de necessidades,
Haveriam de te lembrar e engrandecer.

Não te fies Brutus, não te fies….


domingo, 23 de setembro de 2012



Levai-me, levai-me para longe,
Bem longe do conforto snobe das cidades,
Para gavetas de cimento, pólos de descanso
E esquecimento fácil,

Madona Mia, tu me queres bem,
Afasta do cliché os olhos meus,
Mil vezes o grafiti desordenado
O corpo de moda barata
Em túneis e passagens trespassado
Aos gastos jardins de pompa en fleur,

À amena placidez dos novos-ricos,
Os faróis do bom gosto e educação,
No dia da verdade curvar-se-ão
Às catedrais de betão da banlieue.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Those I Have told You About


Suspensa trago em mim,
A dor ultrajante dos vencidos,
Os gemidos mudos esquecidos,
A Fúria conquistadora de Trajano,

A verdade perdida da mudança,
A glória dos Deuses gregos em desgraça,
O espírito indomável saltimbanco,
As angústias de Plínio e os cruzados,

A herança pesarosa do corpo
Do sem-abrigo, o sono inquieto,
O fardo do tempo
E a náusea do mediano,
E a fome, esse monstro insaciável,

A loucura de Nero quase artista,
Um Tibério a laivos tiranete,
O absurdo de Calígula e as mães
De todos os que se contentam com o mundo,

Suspensas trago, a prisão e o desespero
Inimigos sempre à espreita
Mas trago o poema da montanha
E a embriaguez necessária,
That’s the living…

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Chegou o Verão







Chegou o Verão

As folhas caídas, som eléctrico,
As suaves nuances não acabam,
Disfarçadas da magia do verão
Bem usual, nesta altura do ano.

Sempre fui um ser estival
Há que dizê-lo!
Vá-se lá com a melancolia inteligente
Do Inverno do Norte,
A agradável reclusão do lar,
O rumor da lenha ardida a crepitar,
Mãe suspeita de altos pensamentos,

Pois veio Verão e Outono
E tudo junto me entretece
Uma Revolução de Outubro
Sem barbas congeladas,
Afinal, uma ideia tão agradável como outras,
[Poder-se-ia adivinhar química em tudo isto]!

Em vão, chega o Verão de contente,
Inundando de sol e praia
As nossas tristezas de sempre.